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quinta-feira, 8 de março de 2012

Análise de depoimento

"Oi, é... eu não quero me identificar, mas quero muito me abrir, tá acontecendo comigo, é, coisas muito difíceis, é, pelo fato de eu ter só 13 anos, eu acho que é muito peso pra mim... eu tô sofrendo muito, é, ..., meu ..., é... eu me sinto gorda, de verdade, sinto que os meninos não olham pra mim por causa do meu peso, mas todo mundo fala que eu tenho peso normal e..., eu tenho o peso ideal para minha altura, eu tenho 1.54 e peso... 45 kilos... e eu não aguento mais o julgamento das pessoas, é muito triste pra mim... eu tô..."


Análise

O fato da menina querer se abrir tem relação com a dificuldade encontrada pelas pelas pessoas, de forma geral, em encontrar um espaço para dizer de si e de suas dificuldades. Não porque não existem profissionais para isto, mas acredito que por duas grandes dificuldades: primeiro, os amigos ou parentes, aos quais sempre nos dirigimos para desabafar, já não estão tão à disposição, pois a sociedade atual demonstra que a individualidade é permanente. Cada sujeito pensa em si mesmo, busca seus objetivos mais individuais, apontando mais uma vez a desqualificação do outro, como se este não existisse. Por outro lado, há uma impossibilidade de se dizer – aquilo que não é expresso em palavras. Para conseguirmos nos expressar e encontrar as palavras possíveis de serem ditas, há que existir uma inserção do simbólico de forma estruturada, pois falamos através do meio simbólico. Hoje, há grande dificuldade de expressão em palavras de si mesmo.
Quando fala que há coisas muito difíceis, podemos interpretar o quanto há de sofrimento para esta menina de 13 anos, que não está encontrando lugares ou formas adequadas para desgarregar o represamento de sua angústia. Logo em seguida em fala é muito peso pra mim, ainda demonstrando que a carga que carrega está se tornando insuportável, mas que se segue de um outro sentido para a mesma palavra, peso, significando o estado físico-corporal. Uma mesma palavra, em sentidos diferentes, mas que organizam a angústia deste sujeito.
Em seguida, diz de duas percepções, que é sua e não pode ser objetivada como concreta, mas que, enquanto sujeito, este faz as interpretações sobre as coisas a sua volta a partir de seu próprio estado (psíquico/emocional): sinto que os meninos não olham pra mim por causa do meu peso, e mais adiante diz: o julgamento das pessoas.
Ainda com a frase: sinto que os meninos não olham pra mim por causa do meu peso, vemos, mais uma vez, a apresentação da necessidade de ser olhada ( e até desejada), inserida no discurso de beleza da sociedade atual, imersa na sociedade do espetáculo, onde é necessário ser visto.

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