É comum escutarmos dos adolescentes a reclamação do não pertencimento. Sentem como se "não fossem daqui", muitos até constróem pensamentos sobre a possibilidade de terem sido adotados. Esta via de dúvida é parte da formação do adolescente que carece de um posicionamento mais bem definido.
Nomeia-se a adolescência como um período de transição e, inserido neste discurso, o adolescente se comporta como 'sem lugar', 'sem posição', 'sem ser'. Há a dificuldade de entender "o que querem de mim", pois exigem como se faz a um adulto e proíbem como a uma criança.
Este sentimento de encontrar o lugar ideal pode acarretar problemas na escola, na família ou em outros grupos, quando o adolescente não consegue se encaixar em lugar nenhum. Fazer parte de um grupo é importante para qualquer sujeito e é na adolescência que isto se torna mais evidente.
O grupo é sempre um suporte, um apoio. O grupo é um elemento importante na formação do adolescente, pois a partir dele é possível iniciar o discurso do "quem sou". Por exemplo, uma pessoa que pertence ao grupo dos que andam de bicicleta vai dizer 'eu sou ciclista'; uma pessoa que pertence ao grupo dos que adoram rock vai dizer 'eu sou roqueiro'. Sendo isto para um adulto, imagine a complexidade para um adolescente.
É neste contexto que aquela famosa frase que nossos avós e pais diziam faz tanto sentido: 'diz-me com quem andas, que eu te direi quem és'.
Para o adolescente a busca por uma inserção grupal é mais complicada, pois ele já de início foi retirado de dois grandes grupos: das crianças e dos adultos. Muitos adolescentes conseguem maior flexibilidade diante dos grupos que se apresentam e se formam a sua frente, contudo, outros possuem tantas dificuldades que acabam necessitando da ajuda de outras pessoas para se fazerem presentes - e se fazer presente, neste caso, é existir. Muitas vezes, a busca para pertencer a algum lugar é tão imaginativa que as contruções fantasiosas acabam sendo um caminho.
Ainda que a adolescência esteja caracterizada por este "entre" - entre a infância e a vida adulta, não podemos considerá-la simplesmente uma transição, pois seus elementos constitutivos são tantos e tão variados que merecem um olhar mais aprofundado.
A sensação de não pertencer a lugar nenhum é consequência de uma série de fatores que confundem o adolescente, pois ele ainda não sabe se movimentar como um adulto ao mesmo tempo que não quer mais pertencer ao mundo infantil. Nisto, ainda acrescentamos os pedidos dos adultos, que ora querem que os adolescentes se comportem de forma madura, ora são tratados como crianças; querem responsabilidades de um adulto, ao mesmo tempo que, querem privá-los de 'coisas' de adulto, considerando (na mente do adolescente) um tratamento infantilizado.
É claro que não podemos querer do outro mais do que ele pode dar. E, também, é claro que não podemos liberar demais. Por isso, a dúvida sobre esta posição, sobre aquilo que ela pode oferecer e o que é possível exigir, também é dos pais.
Ainda assim, os pais não devem, necessariamente, se sentirem culpados, pois cada sujeito é responsável pelo seu próprio movimento e toda atuação tende a ser pela conveniência, ou seja, se um adolescente não obedece, cabe a responsabilidade dos pais e a responsabilidade dele mesmo - o adolescente, por não mais estar na infância, não pode ser considerado completamente inocente. Muitas vezes, o adolescente se comporta de forma infantilizada porque tem benefícios nesta posição.
Há muitos anos, o discurso sobre a melhor forma de educar os filhos era pela via repressiva. Depois passamos ao discurso 'é proibido proibir' ou 'não diga não', indicando que qualquer forma de repressão seria traumatizante e, portanto, problemática. Hoje, já assistimos as consequências desta liberação absoluta, na forma desrespeitosa e irresponsável com que jovens (adolescentes ou adultos) conduzem suas vidas e suas relações com os outros.
Não existe fórmula mágica ou qualquer receita que se ajuste a toda situação. E por mais que os pais acreditem que estão fazendo o melhor, ainda erram. O certo é que ainda existe muito a se saber
Nenhum comentário:
Postar um comentário